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O descanso também é trabalho

Produtividade sem pausa não é sucesso, é fadiga com crachá. Descansar também é necessário para trabalhar bem e com saúde.

Por Tatiana Pimenta, em colaboração especial com a Você S/A*
18 dez 2025, 15h00 •
Uma mulher descansando em uma rede, com árvores ao fundo.
 (Radek Grzybowski/Unsplash)
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  • Vivemos numa cultura que celebra o fazer. Entregar mais, render mais, acelerar sempre. Descansar virou sinônimo de luxo, e parar, um verbo quase proibido. Mas o corpo e a mente têm uma sabedoria que o mercado ainda insiste em ignorar: descansar também é trabalho.

    A autora Tricia Hersey, no livro ‘Descansar é Resistir’, define o descanso como “um ato de coragem que poucos te estimulam a praticar”. Ela propõe uma inversão necessária: o descanso não é um intervalo entre conquistas, mas parte do processo que as torna possíveis.

    Quando ignoramos isso, a conta chega na forma de fadiga, desatenção, irritabilidade, perda de criatividade e esgotamento. Não é falta de competência, é falta de recuperação.

    Foram cinco maratonas e muitas horas de treino até entender o óbvio: descanso também é parte do treino. Nos ciclos de corrida, ele é parte do planejamento, e o “day off” não é negociável. É o dia em que o corpo trabalha para reconstruir fibras, reparar micro lesões e recuperar energia. Sem ele, o atleta não evolui. 

    Hoje, vivendo a gestação da minha primeira filha aos 44 anos, essa compreensão ganhou uma nova camada de profundidade. No primeiro trimestre, o sono parecia infinito. O corpo, silenciosamente, está criando uma nova vida, construindo a placenta, dobrando o volume de sangue, reorganizando tudo por dentro. Enquanto a mente cobrava produtividade, o corpo fazia o que sabia: desacelerava para gerar.

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    Trata-se então do descanso atuando como força vital, e não como pausa. A biologia entende o que o mundo corporativo ainda reluta em aceitar, que sem regeneração, não há crescimento.

    O descanso que também produz

    Nos ambientes de trabalho, ainda confundimos presença com performance. Mas estar não é o mesmo que entregar. Segundo o Censo de Saúde Mental da Vittude, o presenteísmo médio nas empresas brasileiras é de 31%. Ou seja, um terço da capacidade produtiva se perde porque as pessoas estão esgotadas, mesmo quando não faltam.

    Esgotamento não vem apenas do excesso de carga, mas da falta de pausa. A mente precisa de espaço para processar, o corpo precisa de tempo para recuperar, e a criatividade só floresce no intervalo entre um esforço e outro.

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    Lembro de um exemplo recente. Era o fim de semana antes do Vittude Awards, e eu ainda não tinha finalizado meu discurso. Poderia ter passado o sábado e o domingo revisando cada linha, mas decidi descansar. Na segunda-feira, acordei leve, inspirada, e o texto saiu inteiro em uma hora.

    Se eu tivesse insistido, exausta, provavelmente teria levado três vezes mais tempo e o resultado seria pior. O descanso também produz, mas de outra forma. Ele reorganiza o pensamento, clareia as ideias, devolve propósito.

    Aprender a descansar também é aprender a liderar. Nos últimos meses, a gravidez tem me ensinado sobre ritmo, priorização e confiança. Tenho delegado mais, praticado escuta, me aproximado das pessoas e, principalmente, preparado o time para funcionar bem na minha ausência. Descansar é, de certo modo, confiar em si, nos outros e nos processos. Uma liderança descansada inspira segurança. Uma liderança exausta, ao contrário, contamina.

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    Empresas que tratam descanso como fraqueza alimentam o presenteísmo, rotatividade e perda de engajamento. Já aquelas que entendem o descanso como estratégia constroem times sustentáveis e resultados mais consistentes. Não é coincidência que a Gallup mostra que equipes com líderes equilibrados e emocionalmente estáveis apresentam 23% mais produtividade e 43% menos rotatividade. Cuidar da energia humana é, cada vez mais, uma questão de negócio.

    Descansar não é o oposto de trabalhar, é o que mantém o trabalho possível. Assim como o corpo do atleta precisa de pausa para evoluir, o corpo da gestante precisa de tempo para criar, e o corpo organizacional precisa de espaço para respirar.

    O descanso é o trabalho invisível que sustenta todos os outros. É nele que as ideias amadurecem, que as pessoas se reconstroem, que o futuro se prepara. Porque produtividade sem pausa não é sucesso, é fadiga com crachá. Aprendi, nas maratonas, na maternidade e na liderança, que parar também é continuar.  E que, no fim das contas, o descanso é o trabalho mais inteligente que existe.

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    *Tatiana Pimenta é fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas.

     

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