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Como ensinar as crianças a lidar com dinheiro

Ensinar o valor do dinheiro e cuidar para que os pequenos recebam uma boa educação financeira na escola são o melhor investimento no futuro.

Por Juliana Américo | Ilustração: Guilherme Lira | Design: Tiago Araujo 8 fev 2021, 08h00 | Atualizado em 3 mar 2021, 11h07
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 (Guilherme Lira/VOCÊ S/A)
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Raras são as famílias que abrem o orçamento da casa com as crianças. É um hábito arraigado na nossa cultura. Se você tem filhos pequenos, porém, vale repensar isso.

“É muito importante que a criança saiba qual é a situação financeira da família. Claro que ela não precisa ter acesso a todas as contas, mas é bom que tenha noção de como é organizado o orçamento, quais investimentos são feitos e as principais despesas. Esse assunto tem que estar presente no almoço de domingo”, diz Ricardo Hikari, fundador da consultoria financeira Plano.

Tem que estar presente porque ensinar os pequenos a lidar com dinheiro é tão importante quanto alfabetizá-los. Crianças sem educação financeira tendem a se tornar adultos que não compreendem o valor do dinheiro. Que caem em roubadas como deixar todas as reservas financeiras na poupança, quando títulos públicos pagam mais, e fundos imobiliários, muito mais. Ou que compram um carro de R$ 120 mil parcelado em juros de 0,99% ao mês achando que é um belo negócio, mas que não param para fazer uma conta básica de juros compostos, e ver que R$ 120 mil a 0,99% mensais em 48 parcelas vai custar R$ 192 mil, deixando você R$ 72 mil mais pobre do que se tivesse juntado bonitinho para comprar à vista – e o banco R$ 72 mil mais rico.

Enfim, qualquer adulto pode melhorar sua própria educação financeira – e colaborar com isso é uma das missões aqui da Você S/A. Mas não há caminho melhor do que ter aprendido em casa, desde pequeno. Quem começa a poupar aos 20 anos, afinal, tem muito mais chance de se ver livre de problemas financeiros do que só passar a pensar nisso aos 30, 40.

Para ensinar seus filhos a poupar, a melhor forma é deixar claro para eles, desde muito cedo, o real valor do dinheiro. Os curitibanos Aline Pontes, de 34 anos, e Anderson Luz, 38, trazem um bom exemplo. Foi na base da conversa que o casal resolveu com os filhos João Pedro (6) e Marina (4) de onde sairia o dinheiro para a compra do tão sonhado PlayStation. As crianças já estavam pedindo o videogame há um tempo, mas os pais tentavam fugir dessa compra. Natural: a versão mais nova custa R$ 5 mil.

Mas chegou o Natal e não dava mais para evitar. “A gente sempre explicava que era caro e que precisávamos juntar mais dinheiro para comprar. Até que o João falou que ia vender pão na porta dos vizinhos para ajudar.” Foi aí que veio a ideia: eles montaram uma barraca em frente de casa para as crianças venderem bolo à vizinhança – igual às barracas de limonada americanas.

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Os bolos foram preparados por uma tia, cada pedaço custava R$ 3, e Aline comprou cartolina para os pequenos escreverem os sabores que tinham. Ela também montou um convite virtual avisando os vizinhos sobre a venda dos bolos. Chegou o dia, as crianças já estavam a postos de avental e touca na cabeça – eles passaram a tarde nessa brincadeira e venderam tudo. No final, o dia de trabalho rendeu R$ 300; um valor simbólico perto do preço do PlayStation, mas uma fortuna no imaginário infantil.

“Eles ficaram muito animados. Aí a gente explicou que eles trabalharam bastante, que o valor não era suficiente, mas que se juntasse com o que o papai e a mamãe estavam economizando ia dar para comprar o videogame.” Agora, temos duas crianças que aprenderam o valor do dinheiro, e que estão se divertindo com o brinquedo novo.

Para que a educação financeira seja realmente eficaz, os pais precisam reconhecer seus próprios pecados monetários, e livrar-se deles. Foi justamente o que a administradora Clarissa Castineira, de 43 anos, fez. “Eu nunca tinha aprendido a lidar com dinheiro; estava endividada, não sabia investir e fazia tudo errado. Foi quando procurei uma assessoria financeira para mim e resolvi ensinar as crianças também, porque eu quero que os meus filhos façam diferente.”

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Clarissa é mãe do Arthur, de 6 anos, e do Bernardo, de 4. Na família de Niterói, aprende-se desde cedo aquilo que o dinheiro realmente é: uma forma de você trocar o tempo que dedicou a um trabalho pelo trabalho de outra pessoa. Na verdade, de várias outras pessoas, já que a produção de um sorvete que seja envolve a fazenda de onde sai o leite, a usina de cana que produz o açúcar, a madeireira de onde saiu o palito, a petroleira que extraiu a matéria-prima da embalagem plástica – cada uma com seus milhares de funcionários.

E, para ensinar o que o dinheiro realmente é, nada melhor que deixar claro que dá trabalho ganhar dinheiro. Há um ano, Clarissa remunera os meninos por algumas tarefas extras, como ajudar a lavar o carro ou limpar o jardim. “Outro dia o Arthur me ajudou com o carro e ganhou umas moedas. Como ele gosta de canetas, fomos até uma papelaria e fui mostrando para ele quais dava para comprar com o dinheiro. No final, ele mesmo virou e falou que precisava fazer mais atividades para poder comprar a caneta que queria.” Está aí um aprendizado que o Arthur vai levar para a vida toda.

Na escola

O papel dos pais tem um limite, claro. Se a escola não colaborar com a educação financeira, vai continuar formando cidadãos que acham que 1% ao mês é uma taxa bacana de juros.

No Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2018, o Brasil acabou em 17º entre os 20 países analisados pela OCDE no quesito competência financeira – ficamos acima somente de Peru, Geórgia e Indonésia. A pesquisa avalia os conhecimentos dos alunos em situações que envolvem cartões de débito e de crédito, escolha de compras, taxa de juros e empréstimos. O que o índice apontou é grave: 43,6% dos estudantes brasileiros não alcançam nem a proficiência nível 1 – são considerados analfabetos financeiros.

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A boa notícia é que o tema finanças começa a ser trabalhado nas escolas. Ele faz parte da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que passou a valer para todas as instituições de ensino no início de 2020. Mas, por mais que a grade curricular esteja ganhando novas aulas, o levantamento do Pisa também mostra que 68,1% dos estudantes brasileiros não possuem nível básico de matemática – ficamos abaixo de Uruguai, Chile, Peru e Colômbia. Ou seja, a maioria dos jovens não sabe resolver questões de adição e subtração. E fica o questionamento: em vez de ensinar finanças, não seria mais indicado melhorar o ensino de matemática no Brasil?

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Não. Porque educação financeira é uma das melhores formas de ensinar o valor prático da matemática. Todo mundo já se questionou sobre o porquê de aprender fórmulas “que nunca mais vai usar”. É um clichê. Mas quando o aluno vê o que ele aprende sendo aplicado em situações de verdade o interesse pela matéria aumenta. Mostrar como a mágica dos juros compostos pode fazer com que um investimento se multiplique é uma forma bem mais divertida de elas aprenderem os poderes da matemática do que a rotina de decorar conceitos abstratos para aplicá-los numa prova, e nunca mais.

A BNCC orienta que a educação financeira seja trabalhada de forma transversal. Isso significa que não precisa haver uma disciplina específica na grade horária chamada “educação financeira”, mas que o assunto deve ser discutido em todas as matérias. Todo professor, independentemente da matéria que ensina, pode e deve abordar temas relacionados a dinheiro.

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Luiz Magalhães, diretor acadêmico da escola Luminova, defende o método. “A gente acredita que saber lidar com finanças é comportamento. E comportamento não se ensina, você vivencia e pratica. Não adianta passar um conteúdo sobre o que é crédito, débito e juros se o aluno não criar consciência sobre desperdício, falta de planejamento e desorganização.”

Na prática, acontece o seguinte: os professores passaram por uma formação continuada para entender mais sobre finanças, e o plano de aula já indica quais conteúdos abrem espaço para abordar o assunto. Por exemplo, quando os alunos estão aprendendo sobre o governo Collor na aula de história, é um momento para explicar sobre inflação, taxa Selic e poupança.

Claudia Forte, superintendente da AEF-Brasil (Associação de Educação Financeira do Brasil), defende essa abordagem multidisciplinar. “A matemática é só um dos componentes da educação financeira, e talvez nem seja o mais importante. Antes de saber quais contas fazer, você precisa entender sobre consumo consciente, inteligência emocional e sustentabilidade. O hábito de fechar a torneira enquanto escova os dentes, por exemplo, faz parte da educação financeira, porque você está economizando dinheiro na conta de água e recursos naturais.”

Mas também há argumentos contra o ensino não especializado. Se um professor de história não tiver os conhecimentos necessários para explicar o que é taxa Selic, que a poupança só paga 70% dela hoje e tudo o mais, o aluno não aprenderá nada.

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Mais: um estudo do Banco Central identificou que os estudantes que recebem aulas de educação financeira usam 9% menos o cheque especial e 6,75% menos o rotativo do cartão de crédito, quando comparados com aqueles que não receberam orientação. Não é um milagre, mas já faz diferença.

E tem outro detalhe, como lembra a especialista em finanças Luciana Ikedo. “Quando educamos as crianças, muitas vezes estamos educando os pais também, porque elas levam para casa tudo que aprenderam.”

É isso. Mostre aos seus filhos o valor do dinheiro e vigie a forma como a escola está ensinando finanças básicas para eles. Não existe investimento com maior taxa de retorno. 

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