Quer mudar de vida em 2026? Comece arrumando a sua cama
Em “Arrume sua cama”, William H. McRaven relata os conselhos que aprendeu na Marinha dos EUA – e mostra como eles podem te encorajar em momentos desafiadores.
Às vezes, as coisas não estão indo bem e você sente que pouco pode fazer frente às dificuldades. Com tantos problemas, tantas tarefas difíceis e metas inalcançáveis, pode ser uma tarefa complicada encontrar motivação para seguir, um dia depois do outro.
Para William H. McRaven, almirante quatro estrelas aposentado da Marinha dos Estados Unidos, e autor de quatro livros, o segredo é simples: arrume a sua cama. Segundo ele, concluir uma tarefa logo de manhã pode ser um pequeno motivo de orgulho e motivação em uma rotina tão desafiadora.
“Às vezes, o simples ato de arrumar a própria cama pode lhe dar o estímulo necessário para começar o dia e a satisfação de terminá-lo bem”, afirma.
Em 2014, McRaven foi convidado pela Universidade do Texas para ser o orador de uma turma de formandos. Seu discurso foi inspirado no lema da faculdade: “mudar o mundo começa aqui”. Na ocasião, ele compartilhou dez princípios que aprendeu durante seu treinamento como SEAL, a principal força de Operações Especiais da Marinha dos EUA, e que o ajudaram a superar desafios em sua longa carreira como militar e em todas as áreas da vida.
O vídeo do discurso viralizou: recebeu mais de 20 milhões de visualizações. (Se entender inglês, pode assistir aos 20 minutos do discurso original no Youtube, por meio deste link). O almirante ficou surpreso com a quantidade de pessoas dispostas a ouvir suas histórias e conselhos. Com isso, decidiu escrever Arrume A Sua Cama: Pequenas atitudes que podem mudar a sua vida… e talvez o mundo. No livro, ele expande os relatos do discurso e descreve sua experiência na Marinha americana com mais detalhes.
Confira, a seguir, o primeiro capítulo do livro. Pode ser que ele seja um passo inicial para mudar o seu mundo também.
Capítulo 1: Comece o dia completando uma tarefa
Se quiser mudar o mundo… comece arrumando a sua cama.
O local do treinamento básico dos SEALs é um prédio de três andares sem nada de excepcional, em frente à praia em Coronado, na Califórnia, a quase 100 metros do Oceano Pacífico. O prédio não tem ar-condicionado, e, à noite, caso a janela fique aberta, é possível escutar a arrebentação das ondas na areia.
Lá, os cômodos são espartanos. No quarto dos oficiais, onde eu ficava alojado com mais três colegas, havia quatro camas, um armário para pendurar os uniformes, e só. Nas manhãs em que permanecia na caserna, pulava de minha beliche e logo começava o processo de arrumá-la. Era a primeira tarefa do dia, que, eu já sabia, estaria repleto de inspeções de uniforme, natação e corrida de longa distância, corrida de obstáculos e tormento intenso e constante por parte dos instrutores.
“Atenção!”, gritava o líder da classe, o segundo-tenente Dan’l Steward, quando o instrutor adentrava o cômodo. De pé à beira da cama, eu batia os calcanhares e ficava em posição de sentido enquanto um suboficial se aproximava do meu posto. O instrutor, severo e imperturbável, começava a inspeção conferindo se o gorro verde do meu uniforme estava engomado, de modo que todas as oito faces do chapéu estivessem impecáveis e no formato exato. Ele examinava cada centímetro, o olhar indo de cima a baixo. Os vincos da camisa e da calça estavam alinhados? A fivela do cinto, polida a ponto de parecer um espelho? As botas, engraxadas o bastante para que visse o reflexo dos próprios dedos? Uma vez, convencido de que eu atendera aos elevados padrões esperados de um aprendiz de SEAL, ele passava a inspecionar a cama.
O móvel era tão simples quanto o quarto, nada além de uma estrutura de aço e um único colchão forrado com um lençol, por cima do qual havia outro. Um cobertor de lã cinza, bem preso embaixo do colchão, garantia o aquecimento nas noites frias de San Diego. Um segundo cobertor ficava dobrado com precisão, em retângulo, ao pé da cama. Um único travesseiro, feito pela Lighthouse for the Blind, uma ONG para deficientes visuais, devia estar posicionado bem no centro da parte superior da cama, formando um ângulo de 90 graus com o cobertor dobrado ao pé. Esse era o padrão. Qualquer desvio dessa exigência precisa me obrigaria a “encarar a arrebentação” e rolar pela praia até ficar coberto, dos pés à cabeça, com areia molhada… Dava-se a isso o nome de “ biscoito de açúcar”.
De pé e imóvel, eu espiava o instrutor de rabo de olho. Ele avaliava minha cama com ar de enfado. Debruçado, checava os cantos bem dobrados e em seguida verificava se o cobertor e o travesseiro estavam alinhados da forma certa. Logo depois, ele tirava uma moeda do bolso e a jogava várias vezes para cima, para se certificar de que eu soubesse que estava na hora do teste final da cama. No último lançamento da moeda, ela caía no colchão e quicava um pouco. Subia alguns centímetros de altura, o suficiente para o instrutor apanhá-la com a mão.
Virando-se para mim, o instrutor me encarava e assentia com a cabeça. Nunca dizia uma palavra sequer. Arrumar a cama do jeito certo não seria uma oportunidade para ganhar elogios. Era o que se esperava de mim. Era minha primeira tarefa do dia, e executá-la de acordo com as regras era importante. Demonstrava minha disciplina, assim como minha atenção aos detalhes, e, ao fim do dia, servia de lembrete de que eu tinha feito algo direito, algo do qual poderia me orgulhar, por menor que fosse a tarefa.
Ao longo de minha vida na Marinha, arrumar a cama foi a única constante com a qual eu podia contar todos os dias. Como um jovem guarda-marinha, a bordo do USS Greyback, submarino de operações especiais, eu ficava alojado na enfermaria, onde as camas eram dispostas em beliches de quatro andares. O médico velho e rabugento que cuidava da enfermaria insistia para que eu arrumasse minha cama todas as manhãs. Costumava dizer que, se as camas não estivessem arrumadas e o quarto não estivesse limpo, como os marinheiros poderiam esperar o tratamento médico ideal? Como vim a descobrir mais tarde, essa sensação de ordem e limpeza se aplicava a todos os aspectos da vida militar.
Trinta anos depois, as Torres Gêmeas foram derrubadas em Nova York. O Pentágono foi atingido, e norte-americanos corajosos morreram em uma aeronave na Pensilvânia. Na época dos atentados, eu estava em casa, me recuperando de um grave acidente de paraquedas. Uma cama hospitalar com rodinhas foi instalada em minha residência funcional, e eu passava a maior parte do dia deitado, em recuperação. Tudo o que mais queria era sair daquela cama. Assim como qualquer SEAL, eu ansiava por me unir aos meus camaradas na batalha.
Quando enfim melhorei o suficiente para me levantar sozinho da cama, a primeira coisa que fiz foi esticar e ajeitar os lençóis, ajustar o travesseiro e me certificar de que a cama hospitalar ficasse apresentável para qualquer pessoa que entrasse em minha casa. Era meu jeito de mostrar que eu tinha superado os ferimentos e estava seguindo adiante com a vida.
Em menos de quatro semanas depois do 11 de Setembro, fui transferido para a Casa Branca, onde passei os dois anos seguintes no recém-criado Escritório de Combate ao Terrorismo, atual Escritório de Contraterrorismo. Em outubro de 2003, eu estava no Iraque, em nosso quartel-general provisório no aeródromo de Bagdá. Durante os primeiros meses, dormimos em camas de campanha. Mesmo assim, eu acordava todas as manhãs, enrolava meu saco de dormir, colocava o travesseiro no topo da cama e me aprontava para o dia.
Em dezembro de 2003, as forças norte-americanas capturaram Saddam Hussein. Durante seu período de confinamento, nós o mantivemos em um pequeno cômodo. Ele também dormia em uma cama de campanha, mas contava com o luxo de lençóis e um cobertor. Uma vez por dia, eu o visitava para me certificar de que os soldados estavam cuidando dele da maneira certa. Percebi, com um senso de ironia, que Saddam não arrumava a própria cama. Os lençóis ficavam sempre amontoados no pé, e eram raros os dias em que ele parecia disposto a esticá-los.
Durante os dez anos seguintes, tive a honra de trabalhar com alguns dos melhores homens e mulheres que minha nação já produziu: de generais a soldados, de almirantes a marinheiros-recrutas, de embaixadores a datilógrafos. Os norte-americanos enviados ao exterior para apoiar a campanha de guerra o faziam de boa vontade e sacrificavam muita coisa para proteger nossa grande nação.
Todos eles compreendiam que a vida é dura e que às vezes há pouco a fazer para influenciar o resultado do seu dia. Na guerra, soldados morrem, famílias ficam de luto, os dias são mais longos e cheios de momentos de ansiedade. Ao servir, você busca algo que lhe traga alívio, que possa motivá-lo a começar o dia, que sirva de motivo de orgulho em um mundo tantas vezes horrendo. Entretanto, isso não se aplica apenas ao combate. A vida cotidiana precisa desse mesmo senso de estrutura. Nada pode substituir a força e o conforto da própria fé, mas às vezes o simples ato de arrumar a própria cama pode lhe dar o estímulo necessário para começar o dia e a satisfação de terminá-lo bem.
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