Oferta Relâmpago: Assine por apenas 7,99

XP: vale a pena comprar ações da companhia?

Ela é a corretora de 3,4 milhões de pessoas. Promoveu a desbancarização dos investimentos, mas quer ser banco. E vendeu uma meta tão ambiciosa que tem penado para cumprir.

Por Tássia Kastner | Design: Brenna Oriá 11 mar 2022, 06h05 | Atualizado em 4 jun 2026, 17h46
-
 (camilamm/Getty Images)
Continua após publicidade

É como se a XP sofresse de uma espécie de síndrome de Peter Pan. Ela é um conglomerado financeiro que vale US$ 18 bilhões na Nasdaq, mas volta e meia ainda é chamada de “corretora independente”.

Fundada há duas décadas numa salinha em Porto Alegre, hoje ocupa seis andares em um prédio de alto padrão na região da Faria Lima e planeja a construção de um campus nos moldes da sede da Apple. E diz até hoje travar uma luta do tipo Davi contra Golias para defender os pequenos investidores dos grandes bancos.

Mas hoje ela própria é uma gigante. A empresa controla não uma, mas três corretoras – além da própria XP, a Rico e a Clear. Tem uma rede formada por mais de 10 mil agentes autônomos – 60% dos profissionais do mercado. Angariou 3,4 milhões de clientes ativos, o que representa quase 70% de todos os investidores de ações do país. E agora quer ser um banco completo, tal qual Itaú e Bradesco.

Hoje ela lucra R$ 1 bilhão por trimestre, dinheiro que é reinvestido para continuar a sua expansão. Quem compra ações da XP conta apenas com os ganhos ainda maiores que ela poderá gerar no futuro, já que a empresa não distribui dividendos – como acontece com as empresas focadas em crescimento contínuo.

Continua após a publicidade

O problema é que, por enquanto, analistas do mercado não apostam em uma disparada expressiva das ações. Os papéis da XP eram negociados por volta dos US$ 32 no final de fevereiro, o que dá uma valorização de 18,5% desde o IPO na bolsa americana, no final de 2019. É menos de 10% ao ano; pouco para uma companhia que cresce de forma acelerada.

-
(Arte/VOCÊ S/A)

Quando uma empresa abre capital, o objetivo principal é levantar dinheiro para promover saltos de crescimento. E a expectativa é que isso leve a uma valorização vultosa das ações.

Continua após a publicidade

A XP chegou a ter uma valorização mais expressiva antes. No pico, alcançado em setembro do ano passado, os papéis atingiram US$ 50, o que dava uma valorização de 85% desde a abertura de capital.

Só que, apesar de listada lá fora, a XP depende 100% do mercado doméstico para crescer. Depois daquele pico, a economia brasileira desandou. As taxas de juros começaram a subir na velocidade de um foguete como medida para controlar a flamejante inflação do país.

A manutenção dos juros num patamar alto, de dois dígitos, tem potencial venenoso para os resultados da XP. Tradicionalmente, uma corretora ganha dinheiro a cada compra e venda de ações. Na XP, cada operação rende a ela a partir de R$ 2,90. Na Clear e na Rico, essas taxas são zeradas. Aí a receita vem da linha de crédito para investidores que fazem day trade, por exemplo.

Continua após a publicidade

Investidores de ações tendem a fazer mais negócios que o time da renda fixa – day traders, então, nem se fala. O problema é que, quando os juros disparam, naturalmente o foco sai da renda variável e caminha para a renda fixa – que passa a ser mais atrativa, e com risco menor. Isso gera menos receita para as corretoras. Investimento em ações é Tinder, um encontro atrás do outro; em títulos públicos é casamento.

Mesmo assim os resultados seguem positivos. Dos quase R$ 3,5 bilhões de faturamento bruto no quarto trimestre de 2021, R$ 2,7 bi vieram de investidores pessoa física – a XP não detalha o que veio de corretagem em relação aos ganhos mais tímidos com renda fixa. Daí a importância do comportamento de pequenos investidores no resultado da empresa. Analistas estavam preparados para resultados mais fracos no fim do ano, mas no fim consideraram que a companhia se saiu bem.

Uma das métricas que mostra isso é a chamada take rate, uma taxa que mede quanto de receita a XP consegue gerar com o volume de recursos aplicado pelos investidores. Mesmo com a virada de direção no mercado para a renda fixa, a take rate ficou em 1,3%. Ou seja: a XP também descobriu como fabricar dinheiro num cenário de juro alto.

Continua após a publicidade
-
(XP Investimentos/Divulgação)

O aprendizado tem uma década e meia. A XP ainda engatinhava quando a crise de 2008 estourou e abateu o mercado de ações. Para sobreviver, ela precisava fazer mais do que oferecer um home broker.

Foi quando Guilherme Benchimol, fundador e a cara da companhia até hoje, decidiu importar para o Brasil o modelo da americana Charles Schwab. A inspiração gringa era mais que uma corretora de ações: havia se convertido em um shopping de investimentos, suprindo toda a sorte de produtos financeiros.

Continua após a publicidade

Naquela época a bolsa brasileira contava com cerca de 300 mil investidores, então fazia todo o sentido oferecer muitas opções na linha da renda fixa e dos fundos de investimento, onde ficava – e ainda fica – o grosso da poupança nacional.

No fundo, a expertise criada naquela primeira crise ajudou a XP a atravessar as outras que se seguiram, como a recessão de 2014 a 2016, e virou ainda algo que deve beneficiá-la em 2022, já que anos eleitorais tendem a afugentar investidores da bolsa.

Sonho vs. meta

Só que o foco da XP não é resiliência, tampouco estabilidade. Um dos valores da empresa, por sinal, é a ideia do “sonho grande” – cunhada por Jorge Paulo Lemann, segundo a qual, se é para sonhar, sonhe alto. No dicionário da Faria Lima, sonho é sinônimo de meta. Foi em 2018 que pela primeira vez Guilherme Benchimol disse que a XP atingiria a marca de R$ 1 trilhão em ativos sob gestão, o dinheiro que os investidores têm na corretora – para dar uma ideia, o Itaú, com 55 milhões de clientes, tem pouco mais de R$ 2 trilhões sob gestão.

A meta da XP, disse Benchimol, seria alcançada ao fim de 2020. Em 2018, ela tinha R$ 123 bi em ativos, o que significava crescer coisa de 700% em menos de dois anos. Esse sonho grande era perseguido com tanto afinco que Benchimol chegou a gravar um vídeo no LinkedIn mostrando um contador, parecido com o impostômetro de São Paulo, para acompanhar o quanto faltava para chegar à marca.

-
(Arte/VOCÊ S/A)

Ao final do prazo, a XP tinha R$ 659 bilhões em ativos. Uma alta de 400%, mas ainda assim abaixo do alvo. Em agosto do ano passado, Benchimol reiterou a meta para o fim de 2021, mas não foi desta vez. Quando o ano passado terminou, a XP tinha R$ 814 bilhões sob gestão. Um dos motivos é que a queda nos preços das ações (o Ibovespa tombou 12% em 2021) fez com que o dinheiro dos investidores encolhesse, em vez de aumentar. De qualquer maneira, mais uma vez o sonho não havia se realizado. Pior: a empresa viu seu arquirrival BTG terminar o ano com o trilhão almejado.

A XP perdeu fôlego também em outras duas frentes, o que explica a dificuldade de chegar aonde se propôs: a entrada de clientes e agentes autônomos desacelerou. A empresa arrebanhou 120 mil novos investidores no último trimestre de 2021, a mais fraca adição desde 2018, nas contas do Bank of America (BofA). A corretora também incorporou menos agentes autônomos a sua rede, o que dificulta a aquisição de clientes.

Esses números colocaram os analistas do mercado em cima do muro. Em geral, eles têm recomendação neutra para as ações da XP: não comprar e nem vender. O BofA acredita que os papéis têm potencial de subir a US$ 40, o que dá uma valorização de 25%. Os analistas do BTG Pactual apostam num preço alvo de US$ 39 para os papéis da XP (+21,9%); o Credit Suisse, US$ 37 (+15,6%).

Seja como for, a XP não está esperando sentada por um futuro com juros mais amigáveis aos seus negócios: vem abrindo outras frentes de crescimento.

-
(XP Investimentos/Divulgação)

Rebancarize-se

O mote da XP para chegar até aqui foi o “desbancarize”. Como corretora independente, ela tentava convencer investidores a tirar dinheiro dos bancos para investir via plataforma. E fazia sentido, já que a baixa competição fazia clientes pagarem caro por investimentos ruins, como fundos de renda fixa com taxas escorchantes.

O negócio bancário dá muito dinheiro porque consiste em vender a maior quantidade de serviços possível a um mesmo cliente. Não é à toa que bancos oferecem conta, crédito, cartão, seguros e também investimentos. Para ganhar também nessas frentes, XP decidiu “bancarizar-se”. São quatro frentes: cartão de crédito, empréstimos, seguros e planos de previdência privada, cujos resultados começam a aparecer agora. Clientes compraram R$ 4,4 bilhões com o cartão da XP, e geraram uma receita de R$ 86 bilhões – resultado turbinado por incentivos da Visa, a bandeira parceira do cartão XP.
Quando fez o seu encontro anual com investidores, a XP disse que o crescimento nessas linhas de negócio geraria uma receita de R$ 10 bilhões em 2025. Segundo cálculos do Credit Suisse, o segmento bancário passaria a responder por 25% da receita bruta do grupo XP, ante os 3% atuais.

Juntando as duas expectativas, o resultado seria uma receita de R$ 40 bilhões, acima da estimativa de R$ 34 bilhões, feita pelo próprio Credit – no fechamento de 2021, foram R$ 13 bilhões. De qualquer forma, haja crescimento. O banco suíço disse que as projeções da XP são “desafiadoras”, especialmente por causa do cenário de juros de dois dígitos que fez a XP andar com o freio de mão puxado em 2021.

O fato é que a XP aposta na operação bancária. No começo do ano, ela fechou um acordo para comprar o banco Modal justamente para fazer deslanchar o negócio no ritmo esperado pelo mercado. A operação ainda depende do aval de órgãos reguladores.

E a XP tem um trauma aí. Quando acertou a venda de metade da empresa para o Itaú, lá em 2018, as duas instituições financeiras passaram por um calvário regulatório com Banco Central e Cade (o órgão de defesa da concorrência no país). No fim, o investimento acabou praticamente desfeito, por total incompatibilidade de interesses – e excesso de concorrência entre as duas instituições.

-
(XP Investimentos/Divulgação)

No caso do acordo Modal/XP, eles tentaram aplicar uma vacina logo de saída. No comunicado, a corretora escreveu que juntos eles representam ainda uma pequena fração do mercado em que atuam. “Como referência, em setembro de 2021, a XP e o Banco Modal tinham juntos 3,8 milhões de clientes ativos, enquanto os cinco maiores bancos brasileiros somavam 457 milhões.”

Se a XP está presa a uma síndrome de Peter Pan, não é para fugir da vida adulta. O foco, pelo jeito, é pular a adolescência. O que ela quer mesmo é ser grande – e mostrou que conhece o caminho para conseguir.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

10 grandes marcas em uma única assinatura digital