A era da competência: adaptabilidade, confiança e futuro possível
O realidade do trabalho mudou muito nos últimos anos. O que o futuro altamente tecnológico reserva para os próximos anos?
Vivemos um momento singular na história do trabalho e da educação. A revolução digital acelerou a dinâmica profissional, criando novas demandas de competências e exigindo flexibilidade das organizações e dos indivíduos. A era industrial valorizava mão de obra repetitiva e previsível, enquanto o século 21 demanda criatividade, pensamento crítico, colaboração e comunicação.
As transformações demográficas e tecnológicas também reconfiguram o mercado. Em poucos anos, a geração Z representará 30% da força de trabalho e ocupará 70% das novas vagas. Isso impõe desafios para as empresas, especialmente considerando que 62% desses jovens aceitariam um salário menor em troca de um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O conceito de trabalho como centro da vida se desloca para um modelo mais flexível e conectado a propósito.
A educação também precisa acompanhar essa evolução. O modelo tradicional, baseado na transmissão linear de conteúdo, não forma profissionais preparados para um mundo em constante mudança. Trabalharão em média em quatro a seis carreiras diferentes ao longo da vida, exigindo requalificação contínua. E isso vai além de aprender novas habilidades técnicas.
A tecnologia está no centro dessa revolução. Processos de automação, inteligência artificial e novas plataformas digitais modificam radicalmente a relação entre conhecimento e produtividade. A tecnologia, quando pensada como meio e não fim, torna-se uma ferramenta poderosa de prosperidade – como pontuei no meu artigo anterior, você pode ler aqui.
No entanto, tão importante quanto saber utilizar essas ferramentas é compreender seus limites e impactos. Em um mundo onde a mudança é a única constante, como bem definiu Zygmunt Bauman, a capacidade de aprender, desaprender e reaprender se torna a grande vantagem competitiva do profissional moderno.
Inovar não é prever: é agir com inteligência
O mercado ainda está preso à ideia de que para inovar é preciso ter tudo sob controle. Mas, na prática, quanto mais você tenta prever cenários e controlar variáveis, mais caro fica errar e menos tempo há para ajustar. A obsessão por lançar produtos “perfeitos” é, na verdade, uma armadilha. Quando algo finalmente está pronto, o mundo já mudou.
Inovação exige movimento. Significa lançar, aprender, ajustar e, se necessário, mudar a rota. Isso vale para produtos, decisões estratégicas e, principalmente, para a cultura organizacional. Esperar por um cenário ideal é desperdiçar a oportunidade de evoluir com o mercado.
O trabalho mudou – e os líderes ainda estão processando
A pandemia escancarou as ineficiências do modelo de trabalho tradicional. O home office provou que produtividade pode crescer longe do escritório. De acordo com o estudo de Imaizumi feito a partir dos microdados do IBGE, na comparação com o primeiro trimestre de 2020, logo antes do início da pandemia, o rendimento dos trabalhadores em home office cresceu 53,6%. Ainda assim, muitas empresas resistem, ignorando dados e reforçando discursos baseados em controle, não em resultados.
É preciso entender que as condições de trabalho nunca foram iguais para todos. Um colaborador que leva duas horas de transporte público até a empresa não vive as mesmas “24 horas” de quem mora a 15 minutos do escritório. Ignorar isso é negligenciar a equidade.
Enquanto, no exterior, grandes empresas como Amazon, Apple, Disney, Meta e Dell já determinaram a volta ao presencial, a Microsoft mantém a flexibilidade como política, desde que metas sejam cumpridas. O recado é claro: a produtividade precisa ser medida por entregas, não por presença física.
Confiança, coerência e cultura
A lição é clara: o desafio não é mais técnico, mas cultural. É preciso investir em métricas de performance e sistemas de gestão que avaliem entregas, e não presenças. Confiar nas pessoas, dar autonomia com responsabilidade e criar sistemas transparentes de comunicação são os novos alicerces de um ambiente próspero.
Por fim, prosperidade se constrói com coerência. Prometer e não cumprir mina a confiança, e nada é mais tóxico em ambientes corporativos. A lógica do “não temos verba para bônus” seguida de executivos trocando de carro e viajando ao exterior é insustentável.
A tecnologia, portanto, é apenas a base. O que define se ela será ou não um agente de prosperidade é a forma como a utilizamos: com mentalidade aberta, foco no coletivo, disposição para o erro e vontade real de evoluir com o mundo e não ir contra ele. Empresas que entendem isso não apenas sobrevivem, mas prosperam. E fazem o mesmo por quem está com elas nessa jornada.
*Leonardo Brazão é cofundador da 1601 – Consultoria de Inovação, que atua junto a grandes empresas no desenvolvimento de negócios, estratégia, inovação e transformação cultural.





