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Biblioteca transformada

Como Luiz Armando Bagolin, diretor da Biblioteca Mario de Andrade, mudou o modelo de gestão da instituição

Por Por Elisa Tozzi 22 dez 2016, 08h00 | Atualizado em 17 dez 2019, 15h18

O filósofo Luiz Armando Bagolin assumiu a Biblioteca Mario de Andrade (BMA), em São Paulo, em 2013 com o desafio de solucionar problemas pontuais de gestão – como a infestação de fungos e o roubo de obras do acervo – e, também, com o objetivo de transformar a BMA em um local mais atraente para o público. Uma das soluções foi ampliar o horário de funcionamento da biblioteca, que hoje fica aberta 24 horas por dia, todos os dias da semana. Em entrevista para a VOCÊ S/A, o diretor explica as estratégias que levaram a Mario de Andrade a se tornar referência na América Latina e a ter um crescimento no número de atendimentos. 

Como foi assumir a Biblioteca Mario de Andrade? 

Eu cheguei à  biblioteca em 2013 como parte de um acordo entre a Universidade de São Paulo, da qual sou professor de filosofia, e a Prefeitura de São Paulo. A minha indicação não foi política. E eu, como professor, não tinha nenhuma experiência administrativa. Cheguei na biblioteca e encontrei muitos problemas. Havia uma infestação de fungos atingindo 80% do acervo. O inventário não era feito desde 1968. Obras tinham sido foram roubadas. Com o objetivo de otimizar e racionalizar soluções, eu dividi a lista de problemas em questões de estrutura, administração e gestão. As duas primeiras foram atacadas imediatamente. E, para atacar a terceira, percebemos que a Mario de Andrade, sendo a segunda maior biblioteca do país, perdendo só para a Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, estava desconectada do mundo de grandes bibliotecas públicas, com as de Nova York, Paris e Londres. Eu passei a fazer aquilo que eu estou acostumado: fui estudar esses cases. Então, começamos a pensar em um modelo de gestão em que a biblioteca pública tem que estar em consonância do que é feito do mundo. A gestão tinha que ser repensada para redirecionar os problemas administrativos e isso nos daria um horizonte para sustentabilidade da Mario de Andrade. 

Quais as dificuldades para implantar o novo modelo de gestão? 

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As pessoas tendem a ser reativas a mudanças, só reagem depois do problema ter acontecido. Uma notícia que ficou famosa é que, no Japão, em uma semana eles cobriram uma cratera [de 15 metros de profundidade]. Mas só fazem isso porque eles têm planejamento. No serviço público municipal brasileiro, isso não existe. As pessoas não têm planeamento nenhum e as coisas funcionam na inércia. Para tentar melhorar nossa atuação, fizemos uma avaliação de como as grandes públicas do mundo são geridas, mas não dá para importar modelo. A biblioteca britânica tem orçamento anual de 1 bilhão de libras esterlinas, quase, e eles atendem 1 milhão de pessoas. No caso da BMA, o orçamento é de 11 milhões de reais e atendemos 500 000 pessoas. E eu nem sei ainda dizer qual será o orçamento do ano que vem. Mandamos as necessidades para a prefeitura, mas em geral, quando a economia vai bem, é a última área a ser lembrada e quando vai mal é a primeira a ser cortada porque é vista como supérfluo – e dentro da área cultural, as bibliotecas são esquecidas. 

De onde tiraram a ideia de deixar a biblioteca funcionando por 24 horas? 

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A gente percebeu que a Mario de Andrade tem um perfil: não é uma biblioteca acadêmica, é uma biblioteca exemplar no Brasil em termos de atendimento ao público. Não tem nenhuma biblioteca na América Latina que seja melhor em atendimento – em escala ou qualidade. Precisávamos explicitar e melhorar a qualidade desse perfil. Aí começou o projeto para torna-la 24 horas. Isso não nasce da percepção de uma carência, nasce da observação da potencialidade. O planejamento para isso levou um ano. Tivemos que mudar todo o conceito da gestão. 

O que mudou no trabalho dos profissionais da Mario de Andrade? 

Em primeiro lugar a biblioteca tinha que ter uma aquisição de novas plataformas tecnológicas, uma delas foram as máquinas de autoatendimento, necessárias porque a BMA teria que funcionar sem servidores a partir das 22h – pela lei, funcionários públicos que não atuam nas áreas de saúde e segurança só podem trabalhar até esse horário.  Com esse maquinário, que veio da Suíça, o trabalho mecânico dos bibliotecários foi substituído por plataformas de autoatendimento. Você nem precisa de carteirinha, com comprovante de endereço e identidade, é só pegar o livro na máquina e devolver o livro em outra máquina. Isso mudou o perfil dos profissionais. O funcionário padrão era alguém que guardava os livros, não estava treinado em ter contato com o público. Na prefeitura ele está acomodado a uma situação em que não é interpelado a exercer outro tipo de atividade na qual não está acostumado. Tivemos que motivá-los a mudar o perfil, atuar mais em um trabalho mais especializado de atendimento à pesquisa. Ele está familiarizado com o acervo, por exemplo, e tem, agora uma atuação mais consultiva. Demos mais autonomia aos usuários e o bibliotecário faz, agora, o trabalho para o qual ele estudou. 

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